BALA PERDIDA
Colunista discute o risco de asteróides se chocarem com a Terra



Asteróides e cometas sempre atraíram a atenção de astrônomos, profissionais e amadores, não só por sua beleza intrínseca, mas também pelo risco potencial – ou real – que representam para nós, terráqueos. Choques contra a Terra de asteróides de todos os tamanhos não são novidade. Colisões passadas deixaram marcas que não só permitiram a reconstrução cronológica dos eventos, com as devidas implicações na história de nossa biosfera, como também deram origem a uma especialidade da astrofísica dedicada a estudar o comportamento desses pedregulhos desgarrados.

O alto interesse e investimento na pesquisa sobre asteróides e cometas ficou bem demonstrado no dia 4 de julho último, com o tiro certeiro disparado pelos cientistas da Nasa, a agência espacial norte-americana, contra o cometa Tempel 1, para investigar a composição de suas camadas mais profundas. Outro feito digno de registro foi o pouso suave da espaçonave Near, em fevereiro de 2001, no asteróide Eros 433, uma grande pedra de cerca de 30 km de comprimento. Antes da ‘aterrissagem’, a Near obteve imagens impressionantes do asteróide, a apenas 300 km de distância, que revelaram ao mundo o movimento de rotação da ‘banana gorda’, como os cientistas o apelidaram.

Não podemos esquecer a observação minuciosa da colisão dos 20 fragmentos do cometa Shoemaker-Levy contra Júpiter, em 1994. As imagens mostraram choques cataclísmicos seqüenciais contra o planeta gigante. Os efeitos desses choques foram surpreendentes, principalmente porque se previa que os fragmentos do cometa, de massa infinitesimal se comparada à de Júpiter, dificilmente seriam observados por nós. Se a Terra tivesse sido o alvo, o Shoemaker-Levy teria certamente provocado a extinção da vida, pelo menos na superfície. Em tempo: o enorme campo gravitacional de Júpiter atua como um verdadeiro escudo protetor para a Terra.

De onde vêm os asteróides mais próximos? Do cinturão de Kuiper, região situada depois de Plutão e assim chamada em homenagem ao astrônomo holandês Gerard Kuiper (1905-1973). Entre aqueles asteróides situados entre Marte e Júpiter no cinturão de Kuiper, calcula-se que existam aí pelo menos um bilhão, dos quais apenas cerca de 30 mil já estão classificados e incluídos em uma lista para monitoração constante.

Um número tão grande torna praticamente impossível calcular que forças empurrarão um deles em nossa direção. E quando. Apesar disso, algumas providências foram tomadas, como a elaboração, em um congresso na Itália, em 1999, da ‘escala de Turim’, que calcula a probabilidade de colisão de objetos com a Terra, levando em conta massa, velocidade, ângulo de entrada e outros fatores. Essa escala deveria funcionar como uma espécie de alerta.

Seguindo a mesma linha de pensamento, o Laboratório de Propulsão a Jato, da Nasa, criou um sistema automatizado de sentinela espacial. Seria o caso de supor que, com todo o acervo tecnológico disponível, além de uma vigilância constante feita por um dedicado grupo de cientistas e amadores, a ausência de notícias significaria que nada de ruim está por acontecer. “No news is good news.” Infelizmente, isso está longe da verdade.

Dois asteróides, um em 1991 e outro em 1993, passaram ‘raspando’ pela Terra e só foram notados depois disso. Acredita-se que tais eventos ocorram mais ou menos duas vezes por ano. O problema é que objetos com centenas de metros e que poderiam destruir áreas imensas não conseguem ser detectados por nenhum telescópio situado na Terra, a menos que estejam a poucos dias de distância.

Na prática, se um asteróide do tamanho de uma montanha se aproximasse da Terra com uma velocidade de 50 mil a 100 mil km/h, teríamos mais ou menos 48 horas de aviso, o que, convenhamos, mal dá para acertarmos nossas dívidas. De qualquer modo, teremos uma prova em breve. O asteróide 2004 MN4 vai passar a apenas 30 mil km da Terra em abril de 2029, o que em termos astronômicos equivale a um tiro de raspão. Nesse caso, o que representaria um minúsculo erro de cálculo? A diferença entre um belíssimo espetáculo e a resposta coletiva para a maior e mais antiga de nossas perguntas.


Franklin Rumjanek
Instituto de Bioquímica Médica,
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
(http://cienciahoje.uol.com.br/4144)
MAIS PRECISÃO NA DATAÇÃO GEOLÓGICA

MAIS PRECISÃO NA DATAÇÃO GEOLÓGICA
Artigo apresenta novo método para definir idade de rochas baseado em isótopos de platina



Um modelo desenvolvido por pesquisadores brasileiros e italianos deve trazer mais precisão para um recente e promissor método de datação geológica baseado na radiação emitida por certos núcleos do elemento químico platina. Os resultados deverão levar a desdobramentos importantes na determinação das idades de materiais como rochas, minerais e meteoritos. O artigo será publicado em Nuclear Instruments and Methods in Physics Research B.
A determinação da idade de materiais geológicos, como rochas e minerais, bem como daqueles provenientes do sistema solar – por exemplo, meteoritos e rochas lunares trazidos pelas missões do projeto Apollo – é baseada no decaimento de isótopos radioativos de diversos elementos químicos.

Os isótopos radioativos são caracterizados por terem núcleos com um excesso de energia que os torna instáveis. Para atingir a estabilidade, esses núcleos desprezam essa energia extra, emitindo radiação eletromagnética (raios gama) ou partículas do tipo alfa (núcleos do elemento químico hélio, ou seja, dois prótons mais dois nêutrons) e beta (elétrons energéticos).

O fenômeno pelo qual o núcleo se livra do excesso de energia é denominado decaimento radioativo. Ao decair, com a emissão de partículas, um núcleo sofre modificação em seu número de massa (soma dos prótons e nêutrons) e/ou número atômico (soma dos prótons), transformando-se no núcleo de outro elemento químico.

A liberação de energia, no entanto, não ocorre de forma desordenada. Cada núcleo radioativo de um mesmo tipo tem uma probabilidade bem definida de emitir radiação em um intervalo de tempo finito. Essa probabilidade de decaimento pode ser expressa de várias formas. Uma delas é a chamada meia-vida do isótopo radioativo.

A meia-vida corresponde ao tempo necessário para que um conjunto contendo inicialmente No núcleos radioativos de um mesmo tipo tenha sua população reduzida à metade. As meias-vidas dos diferentes isótopos radioativos naturais e artificiais variam por diversas ordens de grandeza. O isótopo do carbono com número de massa 14 (14C) tem, por exemplo, uma meia-vida de 5,7 mil anos, enquanto o isótopo de potássio com número de massa 40 (40K) tem uma meia-vida de 1,275 bilhão de anos.

Os isótopos radioativos naturais estão presentes nas rochas e nos minerais em quantidades normalmente muito pequenas e que variam ao longo do tempo à medida que ocorre o decaimento radioativo. Os métodos de determinação de idade fundamentados na radioatividade (ou métodos radiométricos de datação) se baseiam na observação dos efeitos da radioatividade.

Alguns desses métodos medem o número de partículas emitidas por unidade de tempo por um elemento radioativo, como o método de datação do 14C. Outros medem a variação do número de isótopos radioativos e do número dos novos núcleos produzidos pelo seu decaimento ao longo da história do mineral ou da rocha. Um exemplo deste último é o método de datação potássio-argônio (K-Ar). Parte do potássio radioativo (40K) decai, produzindo um núcleo de argônio com número de massa 40. Medindo as quantidades de potássio e de argônio contidos em uma amostra e conhecendo a meia-vida do 40K, é possível determinar a idade do material.

Os diferentes métodos de datação radiométrica podem ser imaginados como relógios usados para marcar o tempo geológico. O pêndulo desse relógio é a meia-vida do isótopo no qual o método se baseia. Se o período do pêndulo é bem conhecido, o passar do tempo é medido com precisão por um relógio. Da mesma forma, se a meia-vida do isótopo é bem conhecida, a idade de uma amostra pode ser determinada com precisão.

Recentemente, foi proposto um novo método de datação baseado no decaimento radioativo do isótopo da platina com número de massa 190 (190Pt). Esse isótopo emite uma partícula alfa e se transforma no isótopo do ósmio com número de massa 186. As propriedades químicas da platina e do ósmio permitem considerar o novo método como muito promissor para estudos geocronológicos e geoquímicos realizados em minerais ricos em sulfetos e em alguns tipos de meteoritos.

A aplicação do método encontra, no entanto, uma dificuldade fundamental. A meia-vida da 190Pt não é conhecida com precisão. Diferentes métodos foram usados para determinar essa meia-vida, mas os resultados obtidos até o momento variam entre 240 bilhões e 1 trilhão de anos. O valor adotado atualmente é de 650 bilhões de anos. Meias-vidas assim longas são difíceis de medir, uma vez que o número de decaimentos radioativos que esse isótopo sofre em qualquer intervalo de tempo de observação em laboratório é muito pequeno.

Pesquisadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), associados a colegas da Universidade de Roma, vêm contribuindo para a obtenção de um valor mais preciso para a meia-vida da 190Pt. Uma de suas contribuições consiste em uma equação obtida teoricamente para predizer o valor da meia-vida de um isótopo. Um dos parâmetros dessa equação não pode ter seu valor determinado pela teoria que deu origem à equação e deve ser estabelecido a partir de dados experimentais. Por essa razão, o modelo é chamado de semi-empírico.

Os autores – os pesquisadores brasileiros Odilon Tavares e Emil Medeiros, do CBPF, e a italiana Maria Letizia Terranova, da Universidade de Roma – usaram valores de meia-vida de outros 18 isótopos da platina, que podem ser descritos pela equação e cuja meia-vida é bem conhecida. Com o parâmetro semi-empírico determinado, a meia-vida da 190Pt foi calculada em (3,7 ± 0,3) x 1011 anos, ou seja, 370 bilhões de anos, com um desvio de 30 bilhões de anos para mais ou para menos.

Esse valor é comparável com o valor experimental de 320 bilhões de anos – ou seja, (3,2 ± 0,1) x 1011 – obtido pelos mesmos autores há alguns anos. O resultado é uma contribuição importante para a solução do difícil problema de estabelecer a meia-vida da 190Pt com a precisão necessária para estudos geocronológicos e geoquímicos.


Fernando Brenha Ribeiro
Departamento de Geofísica,
Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas,
Universidade de São Paulo
(http://cienciahoje.uol.com.br/4093)
A Ciência Precisa Combater a Pseudo-Ciência: Uma Declaração de 32 Cientistas e Filósofos Russos
Esse artigo reforça aquilo que foi discutido no meu ensaio abaixo " Temos Real Necessidade de Pensar Cientificamente, Também?" . Nunca estivemos tão cercados pelos produtos da ciência, seja de maneira direta ou indireta, e simultaneamente, nunca estivemos tão expostos ao espírito pseudo-científico. Muito direto e objetivo, eu recomendo. Profº Cleiber Marques Vieira.

Os representantes de muitas ciências e disciplinas -- astrônomos, físicos, químicos, biólogos, filósofos, advogados, psicólogos -- estão preocupados pelo crescente disseminação da astrologia, medicina alternativa, quiromancia, numerologia e pseudo-ciências místicas na Rússia e outros países do mundo. Desejamos atrair a atenção do público à ameaça de uma atitude não crítica em relação às profecias e conselhos dos "praticantes modernos das ciências ocultas", professadas tanto em particular como na mídia. Aqueles que acreditam na dependência do destino humano em corpos celestes, substâncias mágicas ou feitiçaria precisam entender que a ciência não pode de maneira alguma oferecer apoio a estas crenças.
Em tempos passados as pessoas acreditavam e utilizavam astrologia, alquimia, cabala mística e medicina popular alternativa. Estas idéias eram uma parte substancial da visão mitológica e mágica do mundo proporcionando um weltanschaaung e propósito cognitivo pré-científico, a ciência estava dando seus primeiros passos. As pessoas acreditavam que os corpos celestes eram as manifestações das forças dos deuses que podiam magicamente influenciar objetos terrestres. Processos físicos pareciam ser o produto de enigmáticas "propriedades ocultas", e elementos químicos pareciam ser o produto de magia. As pessoas não tinham nenhum entendimento da natureza das interações químicas e físicas. Hoje, quando a ciência compreende as causas principais pelas quais corpos celestes influenciam fenômenos na Terra, não há nenhuma razão baseada na ciência para alegar que estas interações ocultas possam influenciar o destino dos humanos.
As estruturas psicofisiológicas de uma pessoa não são determinadas pela posição das estrelas e dos planetas no hora e no local do nascimento, mas pelo código genético herdado e por fatores sócio-culturais. A astrologia misticamente interpreta que as variações do campo geomagnético e a atividade solar tem um efeito sobre o bem estar humano. Explosões da cromosfera solar e tempestades magnéticas na verdade tem algum efeito sobre a psique humana e sobre o comportamento humano, mas a astrologia e a medicina charlatã não proporcionam uma compreensão deste fenômeno.
Organismo vivos manifestam uma radiação eletromagnética fraca, mas não há nenhuma evidência científica conhecida para alegar a existência de "biocampos" ou "energia psíquica." O calendário astrológico não corresponde a realidade física atual, mas somente oferece descrições metafóricas arcaicas de eventos astronômicos. Crenças supersticiosas e aceitação não crítica de coincidências como causas minam a confiança na capacidade dos seres humanos para encararem realisticamente os eventos da vida. Astrólogos, parapsicólogos e videntes sustentam alegações não comprovadas baseadas em pseudo-ciência; organizam academias e concedem títulos.
Muitas pessoas acreditam em clarividência, astrologia e outras superstições para compensar desconfortos psicológicos de nosso tempo. Outros buscam o conselho de autoridades de fora na tomada de decisões importantes. Problemas pessoais e sociais, com os quais não se pode enfrentar, são dirigidos a bruxas, feiticeiros e terapeutas charlatões. A crença nas forças astrais oferecem uma oportunidade para se esquivar da responsabilidade pela escolha e desobriga as pessoas de aceitarem seus próprios erros.
No tempo de disseminação bastante difundida da educação científica e grandes avanços da ciência, não podemos mais supor que as superstições desaparecerão por sua própria conta. Pelo contrário, a sociedade é agora inundada pelas "ciências ocultas." Os propagadores da pseudo-ciência e "conhecimentos enigmáticos" tentam se acobertar sob o manto, termos e métodos da ciência genuína. Astrologia, por exemplo, tenta influenciar decisões políticas e econômicas, descaradamente se intrometer nas vidas particulares das pessoas. Muito disto é encorajado pelos meios de comunicação, jogando com e explorando as falibilidades humanas.
A pseudo-ciência mística é uma praga internacional que tem acometido muitos países do mundo. Isto foi sugerido por uma declaração pública de 1975 criticando a astrologia feita por 186 dos principais cientistas (incluindo dezoito vencedores do Prêmio Nobel), que foi intensamente aclamada por todo o mundo.
Esta é a hora da comunidade dos cientistas russos confrontarem estes assuntos com todos seu poder.
Uma das grandes conquistas inquestionáveis dos anos recentes é a oportunidade das pessoas de expressarem suas opiniões abertamente. Infelizmente, muitas pessoas são apanhadas pelo poder persuasivo do absurdo e das superstições perigosas; elas não devem ser consideradas pelos seus trajes pseudo-científicos. Nenhuma tentativa de fazer pensamentos mágicos cientificamente respeitáveis pode possivelmente ocultar suas completa incompatibilidade com a ciência.

Assinado por:
Vice- presidentes e membros do Conselho
da Academia Russa de Ciências (ARC)
• V. Kudryavtsev (vice- presidente, ARC)
• O. Nefedov (vice-presidente, ARC)
• R. Petrov (vice-presidente, ARC)
• B. Topornin (secretário, Departamento de Filosofia, Sociologia, Psicologia e Direito, ARC)
Diretores de institutos de pesquisa
• A. Boyarchuk, Instituto de Astronomia, membro da ARC
• A. Brushlinskii, membro correspondente da ARC, Instituto de Psicologia
• A. Cherepashchuk, membro correspondente da ARC, Instituto Estatal de Sternberg para Astronomia, Universidade Estatal de Moscou
• V. Skulachev, membro da ARC, Instituto de Biofísica e Bioquímica, Universidade Estatal de Moscou
• V. Stepin, membro do ARC, Instituto de Filosofia
Membros da Academia Russa de Ciências
• I. Atabekov (biologia)
• A. Bogdanov (biologia)
• G. Dobrovolskii (biologia)
• E. Feinberg (física)
• V. Ginzburg (física)
• D. Gvishiani (estudos de sistemas)
• N. Kardashev (astronomia espacial)
• V. Laptev (direito)
• T. Oizerman (filosofia)
• M. Ostrovskii (biologia)
Membros correspondentes da Academia Russa de Ciências
• N. Bikkenin (filosofia)
• E. Chekharin (direito)
• V. Chkhikvadze (direito)
• A. Guseinov (filosofia)
• N. Lapin (filosofia)
• V. Lektorskii (filosofia)
• L. Mitrokhin (filosofia)
• V. Nersesyantz (direito)
Doutores em Ciência:
• Yu. Efremov (astronomia)
• I. Kasavin (filosofia)
• A. Ogurtsov (filosofia)
• B. Pruzhinin (filosofia)
• M. Rozov (filosofia)
____________________________
Esta declaração foi publicada na Izvestiya em 17 de julho de 1998, e republicada na edição de janeiro/fevereiro 1999 da Skeptical Inquirer.
FÓSSIL CHINÊS ELUCIDA EVOLUÇÃO DO OUVIDO
Um dos desafios permanentes do estudo de evolução orgânica, consiste em conseguir demonstrar estágios intermediários que expliquem como é que estruturas bem adaptadas atualmente podem ter sido selecionadas no passado a partir de estruturas adaptadas para situações e, às vezes, até mesmo para outras funções diferentes (exaptação). Esse pequeno artigo tenta discutir uma das contribuições recentes que reforçam os padrões básicos de evolução darwiniana. Profº Cleiber Marques Vieira.


RICARDO BONALUME NETO
da Folha de S.Paulo

Um fóssil que pode ser considerado o "elo perdido" da audição foi descoberto na China. O recém-batizado yanoconodonte, (Yanoconodon allini), tem os ossos do ouvido numa posição intermediária entre os de répteis e mamíferos modernos.

O ouvido se divide em três partes: externo, que capta os sons; médio, que transforma a onda sonora em vibrações, através de pequenos ossos; e interno, onde o som é transformado em impulsos elétricos para envio ao cérebro.

Os mamíferos são os únicos animais que têm três pequenos ossos interligados no ouvido médio, chamados martelo, bigorna e estribo. Esses ossos evoluíram a partir da mandíbula dos répteis, mas havia poucas evidências dessa transição no registro fóssil.

"O yanoconodonte tem implicações significativas para a origem do ouvido médio, uma característica anatômica que distingue os mamíferos de todos os outros vertebrados", disse à Folha o líder da pesquisa Zhe-Xi Luo, do Museu Carnegie de Pittsburgh, nos EUA.

Função vital

Segundo Luo, o surgimento do ouvido médio foi o que deu aos mamíferos sua audição aguçada, fundamental para a sobrevivência do grupo em meio a dinossauros. Há mais de 65 milhões de anos atrás, os mamíferos eram provavelmente todos notívagos e precisavam ouvir bem para sobreviver.

O fóssil, de 125 milhões de anos, era de um bicho de 15 cm e 30 g de peso. Ele está descrito hoje na revista "Nature".

Criacionismo

Religiosos que criticam a teoria da evolução dizem que formas transicionais não têm função prática e defendem a hipótese do "design inteligente", segundo a qual estruturas complexas, como animais, só podem ter ser criadas por uma inteligência divina.

"Isso é rejeitado por cada nova descoberta de fóssil que revela uma condição evolutiva precursora de uma adaptação biológica moderna, como a estrutura transicional do yanoconodonte em relação ao ouvido médio do mamífero moderno."

Mesmo integrados à mandíbula em animais "pré-mamíferos", os ossinhos tinham função. Seriam eficientes em detectar vibração do solo e sons graves, segundo Luo. Já o ouvido médio totalmente separado da mandíbula é mais sensível a sons trazidos pelo ar, especialmente os mais agudos.

"É concebível que a estrutura intermediária do yanoconodonte fosse capaz de ambos. Ela não teria perdido sua utilidade em detectar som de baixa freqüência através da mandíbula em contato com o solo, mas teria ganho também uma melhor capacidade de ouvir o som vindo pelo ar", afirma Luo.(http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u16119.shtml)
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