ESCOLA É LUGAR DE CIÊNCIA
Muitos teóricos discutem se nós da área científica não pecamos mais pela omissão do que pelo excesso no que diz respeito à divulgação, para a sociedade, de tópicos que já parecem muito óbvios no meio acadêmico. Esse parece o caso dos assuntos que envolvem a teoria de evolução orgânica. A factualidade dos mecanismos evolutivos é tão óbvia que, às vezes, nos parece redundante ter que defendê-los como se fosse pela primeira vez. Infelizmente, uma "onda" de modismos pseudocientíficos tem trazido à tona velhas discussões ultrapassadas, por exemplo, a validade do ensino nas escolas de nível fundamental e médio de mitologias, cosmogonias (tais como o criacionismo cristão) e/ou quaisquer outras formas alternativas ao conhecimento científico. Muita gente boa tem discutido, recentemente, esses assuntos e tem defendido um ponto de vista mais coerente. Esse artigo é um exemplo bem legal disso, eu recomendo (http://www.unb.br/acs/bcopauta/educacao7.htm). Professor Cleiber.
Professora de Biologia da UnB critica o ensino do criacionismo
nos colégios de nível fundamental e médio
De onde viemos? A pergunta que alimenta a investigação e o debate suscita respostas em diversas áreas, incluindo a religião e a ciência. Para a religião, especificamente no caso dos cristãos, a Bíblia exerce papel determinante. Para os mais radicais, a Gênese contém a verdade ao apresentar a origem da Terra e dos seres vivos em seis dias e a dos homens e mulheres a partir do barro (Adão) e de uma costela (Eva). Eis, em poucas palavras, a idéia do criacionismo. Já para a ciência – que lança mão de práticas como observação, experimentação, contraprova, avaliação de modelos ou testes em laboratórios – a origem do universo e da vida ganha outras explicações, como as teorias do Big Bang e da Evolução, aceitas pela quase totalidade dos estudiosos do mundo. Para a professora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB) Rosana Tidon, o criacionismo não pode receber o mesmo valor dado às teorias científicas. Isso precisa ficar claro, principalmente, no ensino de ciências das escolas.
O alerta surge por conta da polêmica instaurada no Rio de Janeiro desde abril de 2004. Quinhentos professores (342 católicos, 132 evengélicos e 26 de outras religiões) foram contratados para ministrar aulas de religião em Campos, no norte fluminense, terra da governadora. A “ciência da criação”, como alguns chamam o criacionismo, será incluída no currículo escolar. A própria governadora, a evangélica Rosinha Matheus, afirmou, em entrevista ao jornal O Globo em abril, ser adepta do criacionismo.
A questão perturba os cientistas pelo fato de que quem acredita no criacionismo confere o mesmo peso a sua crença que o dado aos estudos científicos que se debruçam sobre a origem da humanidade. Muitos também utilizam o argumento de que a Teoria da Evolução está em decadência.
A professora Rosana Tidon – que passou 10 meses em 2003 estudando os argumentos dos criacionistas e a biologia evolutiva em seu pós-doutorado no Museu de História Natural da Universidade de Harvard (Estados Unidos) – refuta a alegação de que os conceitos de evolução estão sendo derrubados. “Não existe nenhuma evidência científica de que a teoria da evolução esteja em descrédito”, afirma a professora de Biologia Evolutiva na UnB.
ORIGEM DAS ESPÉCIES – A Teoria da Evolução – preconizada pelo naturalista britânico Charles Darwin no século XIX – sustenta que as espécies procedem umas das outras e que o principal mecanismo responsável pelas mudanças evolutivas é a seleção natural. Como explica a professora Rosana, essa teoria não está em questionamento. “Ainda não conhecemos todas as relações de parentesco entre os seres vivos, mas trata-se apenas de encaixar as últimas peças de um quebra-cabeças onde a imagem principal já está clara”, diz.
A professora também esclarece que há equívocos no entendimento da evolução. Para os leigos, a primeira idéia que vem à mente é a da escala de evolução do homem, com imagens começando dos macacos até o Homo sapiens. Essa representação é errada, por passar um conceito de progresso e, conseqüentemente, de seres “inferiores” e “superiores”. Não se trata disso. Na realidade, tanto os homens quanto os macacos existentes hoje são descendentes de ancestrais comuns que viveram no passado, portanto nenhum é “melhor” que o outro. E isso vale para a totalidade de seres vivos do planeta.
O que preocupa Rosana Tidon é uma possível confusão na cabeça dos alunos que estudarem o criacionismo nas escolas. “Na escola, deve-se ensinar ciência, não dogmas de fé”, defende. “E o criacionismo tem seus alicerces na religião, na interpretação literal das escrituras, não na observação científica”. Segundo ela, é perfeitamente possível crer em Deus e aceitar a teoria da evolução das espécies, ou seja, conciliar a ciência com a fé.
PREPARO MELHOR – Em março de 2004, a pesquisadora publicou, no periódico científico Genetics and Molecular Biology estudo sobre as dificuldades que professores da rede de ensino básico do Distrito Federal têm ao ensinar a Biologia Evolutiva para seus alunos. Muitos acabam passando visões enviesadas, perpetuando conceitos errados. “Os próprios professores ainda têm muito arraigada a idéia de progresso e não a de adaptação”, examina ela.
Setenta e um professores de Biologia responderam, no ano de 1997, a um questionário elaborado pelos pesquisadores da UnB. Embora todos tivessem graduação completa, apenas 82% haviam estudado Biologia Evolutiva no curso superior. Do total, 60% dos docentes admitiram algum tipo de dificuldade para ensinar o conceito de evolução aos estudantes do ensino médio. A maioria citou falta de preparação, falta de materiais didáticos e falta de tempo para a matéria no currículo. E 62% dos professores falaram que os alunos eram imaturos e não tinham base teórica suficiente para entender bem a questão.
A professora faz algumas sugestões para mudar esse quadro:
• treinamento continuado dos professores
• revisão e reforço do currículo de Ciências
• continuidade do programa do Ministério da Educação que analisa o conteúdo dos livros didáticos para corrigir erros e interpretações ultrapassadas.
CONTATO
Professora Rosana Tidon pelo telefone (61) 3307 2033 e pelo e-mail rotidon@unb.br.
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