TEMOS REAL NECESSIDADE DE PENSAR CIENTIFICAMENTE, TAMBÉM?
Durante o meu doutoramento, houve momentos de férteis discussões (principalmente, com pessoas de áreas "menos científicas") sobre a maior ou menor importância, para o homem moderno, de uma abordagem racional dos fatos da natureza. Esse pequeno texto constitui um esboço (escrito durante esse período) de parte das minhas opiniões pessoais a esse respeito. Sendo, apenas um ponto de partida para reflexões que, se discutidas de forma menos leviana ou vulgar, necessitariam de muito mais espaço e profundidade. Assim, são antigas idéias com "novas roupagens" que parecem interessantes de serem compartilhadas. PROFESSOR CLEIBER MARQUES VIEIRA.

TEMOS REAL NECESSIDADE DE PENSAR CIENTIFICAMENTE, TAMBÉM?

A resposta a essa indagação poderia ser dada no final da discussão que será feita a seguir, entretanto, para evitarmos qualquer suspense não intencional: parece que SIM! Nós deveríamos gastar mais tempo na aquisição de conhecimentos produzidos pela análise racional dos processos e fatos reais que nos rodeiam. Pelo menos um tempo igual àquele gasto com atividades mentais não científicas. E por quê? Vamos pensar em alguns aspectos gerais.
Os períodos de passagem entre um milênio e outro suscitaram, desde o início da história da humanidade, um turbilhão de questionamentos e novas interpretações de muitos dos dogmas que vêm conduzindo a estruturação, manutenção e divulgação das formas de pensamento do homem. O início do século XXI e, conseqüentemente, o rompimento do último milênio não fugiram dessa – quase – regra histórica. O atual período foi marcado por um forte contraste entre as antigas concepções fundamentadas nos dogmas milenaristas (pelo menos do ponto de vista ocidental), tais como o “mito da criação divina”, “o mito do apocalipse”, entre outros, e as modernas concepções estabelecidas como resultado das metodologias e processos de construção do saber com base na ciência. É provável, que em nenhum momento histórico da humanidade será possível identificar a convivência cotidiana do homem com tantos avanços oriundos do seu desenvolvimento científico e tecnológico. Nunca a ciência (mais especificamente nas suas formas aplicadas) esteve tão direta ou indiretamente presente no cotidiano das pessoas. Até mesmo as pessoas menos informadas são influenciadas por mudanças produzidas pelo conhecimento científico.
Parece possível argumentar que nós (salvo alguns povos que se mantêm estruturados política e sócio-culturalmente sob um regime primitivista em algumas regiões da Terra), literalmente comemos, bebemos, cheiramos, vestimos, voamos e corremos (ou melhor, andamos, pois, nenhum mamífero do nosso grupo, exceto se estivermos falando a respeito de um guepardo, que pode atingir 110 Km/h, está adaptado para se locomover da forma como costumamos fazer todos os dias em nossos automóveis) através da ciência, dentre milhares de outros exemplos de atividades humanas modernas que vêm sendo superpotencializadas nos últimos séculos pelos avanços tecnológicos. Parece lógico acreditar que qualquer ser humano, independentemente das variações étnicas, sociais, teológicas e filosóficas, durante algum pequeno “ataque de lucidez”, deve se sentir estupefato todas as vezes que vislumbra a decolagem de um avião, a transmissão de uma imagem ao vivo (transmitida via satélite), ou quando vê a imagem do próprio interior do seu corpo através de um sistema de ultra-sonografia computadorizada (ou, pelo menos, se não se sentir deve-se ao fato de que o nosso cérebro produz uma sensação inercial que nos habitua, automaticamente, às situações repetitivas – cotidianas).
A mente de todo ser humano que nasce nos dias atuais e, conseqüentemente, sua forma de construir a estrutura do conhecimento que servirá de base para a sua relação com o universo ao seu redor está imersa, consciente ou inconscientemente, num contexto onde a existência da ciência faz uma grande diferença. Apesar de quaisquer excessos que possam ser cometidos por uma concepção racionalista da vida (o que não reduz de nenhuma forma a subjetividade associada a cada ser humano), o principal traço que diferencia o Homo sapiens de qualquer outro animal que vive nesse planeta está ligado diretamente à capacidade que ele teve, desde sua origem na Terra - 180 mil anos atrás - de criar formas complexas de compreender e influenciar o seu ambiente. A nossa cultura e tecnologia, que tanto nos diferenciam dos outros animais, podem ser interpretadas como a inevitabilidade histórica, com altos padrões de complexidade, da ação do animal humano sobre o planeta.
No início do seu desenvolvimento, os grupos humanos pré-históricos apresentavam, provavelmente, um padrão parecido com aquele esperado para outros mamíferos: manutenção de pequenas populações capazes de subsistirem em ambientes, na maioria das vezes, inóspitos. É impossível se discutir a origem do pensamento complexo do homem desvinculado da necessidade inicial dos grupos pré-modernos de compreender e manipular o ambiente, pois, a tecnologia – que em muitos aspectos serviu como base para o estabelecimento da cultura – foi o resultado histórico do acúmulo dessas experiências humanas no sentido de criar um mundo que atendesse às suas expectativas. Assim, a constatação de que o cenário epistemológico e filosófico inicial, onde foi “moldada a mente do homem primitivo”, era pobre em informações (primeiras concepções a respeito dos padrões que se expressam na natureza) e que o cenário atual (conjunto das informações científicas acumuladas ao longo dos últimos séculos) é rico, possibilitando uma interpretação mais complexa do universo, não se traduz superficialmente em uma análise qualitativa do homem moderno em relação ao homem antigo, mas na seqüência histórica natural da evolução do conhecimento. É provável que o acréscimo rápido e constante de conhecimento que estamos observando nos últimos séculos crie, para as gerações futuras, uma impressão de obscurantismo na nossa capacidade atual de compreendermos as relações com o mundo em que vivemos, tal como a que experimentamos hoje quando pensamos nos grupos humanos primitivos. Logo, a negação, ou negligência, do conhecimento científico é, em última análise, a negação da própria história do conhecimento humano, ou talvez, a parte mais instigante de toda a história humana. E, não somente, porque é a parte sincronizada ao nosso tempo, mas porque nela têm sido geradas as maiores revoluções nas formas do ser humano compreender e interagir com o seu ambiente.
Uma demonstração óbvia dessa afirmação (e que deveria ser trivial e necessária em qualquer introdução sobre o papel da ciência, em qualquer nível de discussão) está associada ao aumento da longevidade humana. No início do século XX a expectativa de vida, em zonas urbanizadas do Brasil, oscilava em torno de três a quatro décadas para humanos adultos. O conhecimento produzido por estudos desenvolvidos, principalmente, nas áreas de parasitologia, imunologia, infectologia, genética médica, cardiologia e oncologia (para citar apenas aquelas áreas básicas, e aplicadas, mais associadas à saúde pública) estenderam esses limites para um intervalo, que em regiões urbanizadas do Brasil e em outras partes do mundo, podem atingir o patamar de oito décadas (em média). É claro que podem ser discutidas todas as implicações políticas, socioeconômicas e/ou religiosas associadas a essa tendência, mas é indiscutível o valor e a importância da pesquisa científica nesse contexto. De fato, é provável que qualquer um de nós buscará um apoio técnico-científico sempre que se imponha uma situação de alteração grave da nossa saúde, ou de uma pessoa muito próxima.
(CONTINUA)
Uma mãe (em pleno estado de consciência) poderá tentar curar quaisquer “pequenos” males do seu filho, tais como dores de cabeça, indisposições gerais, dores musculares, disfunções digestivas, alterações de estado emocional produzidas pelo estresse, utilizando-se de “técnicas” não-científicas. Entretanto, sempre correrá em busca de auxílio técnico-científico quando o problema estiver relacionado com uma infecção crônica (produzida por um patógeno resistente, por exemplo), com uma disfunção congênita ou com tumores cancerígenos. É quase uma lição de filosofia popular: quando a situação é menos séria serve qualquer tentativa, mas quando a coisa é séria chamem a ciência. Esse padrão de conduta, ou postura, é até esperado (já que o ser humano é movido basicamente por necessidade), porém, parece bastante hipócrita que essa mesma mãe seja capaz de esquecer, ou até negar, o valor do conhecimento científico quando envolvida por argumentações esotéricas vazias ou pseudocientíficas.
Por mais psicológicos que sejamos, a nossa “caixa de pensamento” ainda é um invólucro, constituído por átomos, moléculas, tecidos, órgãos e uma infinidade de conexões nervosas que estão submetidas às mesmas leis naturais as quais está submetida a maior parte das estruturas que constituem a matéria - pelo menos a matéria macroscópica - do nosso universo. Apesar de acirrados debates entre teóricos de variadas áreas do conhecimento, tais como filosofia, teologia, epistemologia e história da ciência quanto à validade da secular discussão Descarteana sobre a dualidade mente-corpo (se a mente é resultado da atividade do próprio corpo ou se faz parte de algum processo fora da esfera material) avanços recentes das neurociências têm demonstrado que boa parte do nosso comportamento se expressa através de caminhos, ou vias de ação, que direta ou indiretamente estão influenciados pela estrutura biológica que constitui os nossos cérebros.
Nenhum cientista sério (principalmente após os longos, desgastantes e inócuos debates sobre a legalidade moral e ética da teoria sociobiológica) seria capaz de advogar a favor de uma base genética restrita associada ao controle do comportamento. Especificamente, defendendo a existência de um conjunto gênico determinístico que controle todas as nossas ações (é bom lembrar que quando falamos “nossas ações” não estamos pensando somente nos seres humanos, mas em todas as espécies de animais e, especificamente, primatas com os quais nos aparentamos). A natureza altamente complexa das nossas relações com o ambiente já inviabilizaria um modelo tão simplista de explicação para o comportamento. Entretanto, parece bastante coerente – com base nos conhecimentos atuais sobre o funcionamento do cérebro, e conseqüentemente da mente humana – que as mesmas predisposições genéticas que estabelecem limites de variação para a expressão morfofisiológica, desde o início do desenvolvimento do nosso embrião, são aquelas que também estabelecem os limites para a expressão de determinadas tendências comportamentais que são influenciadas direta ou indiretamente pela estrutura biológica dos nossos cérebros. Isso não quer dizer que existam genes específicos direcionando as nossas formas de agir, mas que ao escolhermos determinadas ações em detrimento de outras, quando submetidos a situações-problema do mundo real, não estaremos escolhendo (em média) a partir de um leque infinito de opções. Por mais lúdicos que possamos ser, parece lógico que essas escolhas serão feitas necessariamente dentro de limites de ação no mundo real que condicionam o funcionamento das estruturas morfológicas e da fisiologia dos animais. Por mais fascinante que possa parecer o sonho mitológico de Ícaro, nossa incapacidade de voar (assim como os limites pra nadar, correr, pular, de força física, de resistência à temperatura, pressão, insolação, etc.) não se deve a uma variação eventual de expressão do nosso livre arbítrio, mas sim ao fato de que todas as coisas materiais – tais como a água, as rochas, o ar, os organismos (plantas, animais, incluindo eu e você) – estão submetidos às mesmas leis físicas e químicas que afetam toda a matéria, provavelmente, em qualquer parte do universo. O efeito gravitacional que torna impossível a levitação espontânea de animais pesados, tais como humanos, elefantes ou baleias, parece se expressar da mesma forma em qualquer parte do universo, onde as condições sejam semelhantes. Ocorrendo, independentemente de uma interpretação “newtoniana” ou “einsteniana”. Esse e outros fatos óbvios, decorrentes da nossa existência nesse planeta, tornam necessária a compreensão racional do mundo que nos rodeia. Basta que percamos alguns minutos pensando neles.
Por acaso, a ferramenta mais poderosa concebida pela mente humana para esse fim (e que vem sendo produzida pela gradativa acumulação, análise e seleção de informações nos últimos três séculos) é a ciência. Daí a necessidade de se compreender o seu significado, forma de funcionamento e, principalmente, a sua real distinção de outras formas de produção de conhecimento criadas pelo homem ao longo de sua história, tais como a filosofia e a religião.
Ler ou não ler? A Obra de Darwin
Esse texto foi extraído da revista Ciência Hoje (http://cienciahoje.uol.com.br/4211). Ele parece bastante atualizado, e ilustrativo, quanto ao problema da necessidade de uma leitura com mais qualidade (com base nos originais, sempre que possível) e, especificamente, da obra original de Charles Darwin, A Origem das Espécies. Como tenho, constantemente, falado com vcs a esse respeito nas minhas aulas acho que será um interessante ponto de partida para discussões.
CLEIBER

Ler ou não ler?
Colunista discute a atualidade e a importância do clássico de Darwin A origem das espécies

Uma pesquisa sobre os livros mais vendidos de todos os tempos revela unanimidade apenas nos dois primeiros lugares. Na cabeça da lista vem a Bíblia e depois o livro de citações do ex-dirigente chinês e teórico marxista Mao Tse-Tung (1893-1976). Este só atingiu o segundo lugar porque, após a revolução cultural na China, o país mais populoso do mundo, todos os cidadãos eram obrigados a ter sua cópia. Os títulos que se seguem a estes variam, dependendo das fontes consultadas. Mesmo que as listas sejam estendidas aos 100 livros mais vendidos, muitas obras importantíssimas ficam de fora.

Um exemplo notável é a contribuição seminal de Charles Darwin (1809-1882), A origem das espécies. Ao ser publicado, em 1859, o livro foi um campeão de vendas, embora as tiragens iniciais tenham sido pequenas para os padrões atuais. No entanto, diferentemente da Bíblia, após o sucesso inicial, gradualmente o interesse do público diminuiu. Hoje, mesmo entre estudantes de biologia de graduação e pós-graduação, e entre seus professores, são poucos os que já leram A origem das espécies. Isso não os impede, entretanto, de citar Darwin com a autoridade de quem conhece sua obra intimamente. Nesse aspecto, guardadas as devidas proporções, A origem, embora menos lida, talvez seja quase tão citada quanto a Bíblia.

Por que acontece esse fenômeno? Seria o caso de a hipótese de Darwin conter falhas? De não se manter robusta diante de novas evidências? Aparentemente, não. Apesar das críticas apaixonadas, das variadas interpretações e dos apêndices acrescentados nos últimos 145 anos, A origem não perdeu nada em importância e vigor e ainda pode ser descrita como a hipótese mais central e unificadora da biologia. Em outras palavras, não existe uma alternativa séria para o modelo de Darwin e, portanto, este permanece incólume e promete ser longevo. O texto é árido ou obscuro? Mais uma vez, não. A origem das espécies foi escrita tendo em mente o público geral. Na verdade, o estilo é quase coloquial, sem lançar mão do jargão científico, e a leitura independe de conhecimento prévio especializado.

Provavelmente aconteceu com Darwin o mesmo que ocorreu com Einstein e outros gigantes. O autor e as circunstâncias históricas passaram a ser mais atraentes que a obra propriamente dita. De fato, as biografias de Darwin têm hoje muito mais destaque nas livrarias que o livro que lhe deu fama. Outros personagens envolvidos na trama de A origem também são campeões de vendas. Uma biografia do capitão Robert Fitzroy (1805-1865), o anfitrião de Darwin na famosa viagem de volta ao mundo a bordo do Beagle, é também bastante popular, principalmente em função de sua personalidade peculiar e de seu antagonismo às idéias blasfemas de Darwin. Por que, então, o desterro de A origem?

É possível que essa rejeição não seja dirigida especificamente contra Darwin. Como outros pensadores influentes, ele parece ter sido vítima de um fenômeno atual e geral que resulta de duas tendências principais: as pessoas lêem menos e, quando o fazem, buscam leituras mais leves, digestivas, que não exijam um trabalho intelectual mais apurado. Basta ver o enorme sucesso de livros pseudocientíficos, em especial os de ‘auto-ajuda’.

Outros fatores também influem. Nos tempos mais recentes, a internet introduziu uma forte competição à leitura tradicional, com seu enorme e acessível poder informacional. É muito mais fácil, hoje, obter informações instantâneas sobre qualquer assunto do que realizar buscas em material impresso – em bibliotecas, por exemplo. A internet poderia significar um grande avanço educativo, se não trouxesse uma contrapartida preocupante. Com ela surgiu também a fobia à prolixidade. Quem se informa eletronicamente exige textos necessariamente curtos e objetivos. O estilo de Darwin e de outros escritores de sua época certamente provocaria surtos de impaciência nos leitores de hoje, sobretudo aqueles mais jovens. O resultado, como se vê, é uma ilusão de conhecimento. É a cultura baseada na citação das citações.

Em tempo: quantos, entre os leitores da CH, já leram A origem das espécies?


Franklin Rumjanek
Instituto de Bioquímica Médica,
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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